Menos negócios, mais dinheiro. O primeiro semestre de 2026 confirmou a tese de seletividade que apontamos em março, mas com um desfecho diferente do que projetávamos. E, para quem tem uma clínica, um hospital ou um pet shop, isso muda a conta.
Quando fechamos o balanço do 1T26, arriscamos uma previsão: com a estabilização da Selic, o financiamento de grandes aquisições ficaria mais barato e o segundo trimestre seria “ainda mais agressivo”.
Acertamos metade. O capital mobilizado subiu. O número de negócios, não. E entender porque essas duas linhas se descolaram é a chave para ler o segundo semestre.
1. Os números do semestre: concentração, não expansão
O dado mais importante do período veio do levantamento da Aon, em parceria com a TTR Data e a Datasite, e ele é contraintuitivo: o Brasil registrou 593 transações de M&A no primeiro semestre de 2026, queda de cerca de 35% frente ao mesmo período de 2025 — mas o valor agregado avançou 15%, para US$ 32,557 bilhões (Exame).
Na leitura de André Nogueira, líder de M&A da Aon no Brasil, o semestre revela um mercado mais seletivo, porém concentrado em operações de maior porte, o que elevou o capital mobilizado mesmo com menos negócios fechados. O padrão já vinha do primeiro trimestre, quando o país registrou 256 operações (-43% na comparação anual) com alta de 114% no valor agregado, segundo o mesmo levantamento (SEGS).
Traduzindo para o setor pet e veterinário: a fila de compradores não encurtou — ela ficou mais exigente. Menos aquisições oportunistas de ativos pequenos, mais cheques grandes para plataformas e ativos de referência.
Para o empreendedor, a implicação é direta e desconfortável: ficou mais difícil ser comprado por acidente. Quem não estiver estruturado simplesmente não entra na conta.
2. O mapa real da compra e venda no setor Vet & Pet
Os dados agregados de M&A contam apenas metade da história. Eles capturam as transações grandes, anunciadas, com assessoria financeira. Abaixo dessa camada existe um mercado muito maior e quase invisível: o de clínicas, hospitais e pet shops que trocam de dono, sem virar notícia.
2.1. O estoque de ativos é enorme — e pulverizado
O Brasil tem hoje 94.598 pet shops ativos, considerando o CNAE de comércio varejista de animais vivos e de artigos e alimentos para pets. O perfil é revelador: 95,2% são microempresas e 57,7% são MEI. São Paulo concentra 27,7% do total, seguido por Minas Gerais e Rio de Janeiro (LeadJet, base de dados públicos, 2026).
Esse é o retrato de um mercado onde o dono decide sozinho e decide rápido, o que acelera negociações, mas também significa que a maioria dos vendedores chega à mesa sem preparo, sem assessoria e sem noção de faixa de preço.
Do lado do faturamento, os dados da Abempet confirmam o peso do pequeno negócio: pequenos e médios pet shops respondem por 48,1% da receita do setor, contra 17,5% de clínicas e hospitais veterinários e apenas 9,6% das megastores (Central do Varejo).
E aqui está o número que melhor explica por que existe tanto apetite comprador: mesmo após a fusão Petz–Cobasi, o grupo combinado detém cerca de 11% de market share. O maior player do país controla um nono do mercado. Em setores consolidados, esse número costuma passar de 40%.
Tradução: a avenida de consolidação que a KPMG apontava em março continua aberta.
2.2. Três ativos, três lógicas de preço
O erro mais comum do empreendedor é presumir que “vender um negócio pet” é uma coisa só. Não é. Os três ativos podem ter compradores diferentes. E com certeza têm lógicas de precificação diferentes e riscos diferentes.
| Pet shop de bairro | Clínica veterinária | Hospital de referência | |
| Comprador típico | Empreendedor local, franqueado, rede regional | Veterinário empreendedor, rede regional, consolidador | Consolidador nacional, fundo, operadora de plano |
| Lógica de preço dominante | Patrimônio (estoque, equipamentos, benfeitorias) + goodwill do ponto | EBITDA ajustado × múltiplo, com peso da carteira | EBITDA ajustado × múltiplo, na faixa alta |
| O que mais derruba o valor | Dependência do ponto e concorrência do e-commerce | Dependência do dono na produção clínica | Passivo regulatório e trabalhista |
| O que mais eleva o valor | Serviços recorrentes (banho e tosa, assinatura) | Mix de especialidades e recorrência | Alta complexidade, UTI, imagem, 24h |
| Liquidez | Alta em volume, baixa em preço | Média | Baixa em volume, alta em preço |
Para clínicas e hospitais de porte médio, a faixa predominante segue entre 4x e 6x EBITDA, como registramos no balanço do 1T26, patamar que não se descomprimiu no semestre.
Para pet shops menores, a negociação raramente parte de EBITDA. Costuma partir do valor do estoque e dos equipamentos, somado ao goodwill(o intangível de marca), carteira e localização, que segundo análise do Negócios Brasil pode representar até metade do valuation de negócios consolidados. É exatamente por isso que um pet shop com receita de serviço recorrente vale consideravelmente mais que um pet shop de revenda pura: ele muda de categoria de precificação.
2.3. Quem está comprando e o que cada um procura
Mapear o comprador certo importa mais do que o múltiplo teórico, porque é a competição entre interessados que define o preço final, não a planilha.
- Consolidadores nacionais de saúde animal: buscam hospitais de alta complexidade como ativos-núcleo. Pagam os melhores múltiplos, exigem a melhor governança e costumam estruturar boa parte do preço em earn-out e permanência.
- Varejo especializado: buscam ponto, fluxo e capacidade de agregar serviço veterinário à loja. Enxergam a clínica como âncora de recorrência.
- Redes regionais em expansão: o comprador mais ativo em volume. Compram clínicas e pet shops de médio porte para adensar praças onde já operam. Decidem rápido e pagam menos que o consolidador nacional, mas fecham mais.
- Franqueadores: não compram a operação, convertem. Uma alternativa concreta para quem quer se estruturar melhor sem vender o controle. Ou seja, ter uma estrutura de marketing melhor. Mas também não dispensa uma boa análise pelo empreendedor.
- Fundos e private equity: entram em plataformas, não em unidades isoladas. Segundo pesquisa da Capital Lab citada pelo Negócios Brasil, 68% dos fundos consultados planejavam novas aquisições no setor em 2026.
3. O ativo que quase ninguém precifica: o imóvel
Um movimento internacional do semestre merece atenção do empreendedor brasileiro. A Four Corners Property Trust, um REIT americano (o equivalente ao fundo imobiliário no Brasil), concluiu a compra de 102 imóveis da rede veterinária Mission Pet Health por US$ 268 milhões, com cap rate médio ponderado de 6,6% no acumulado do ano (Investing.com).
Traduzindo o cap rate: aquele imóvel foi precificado a cerca de 15 vezes o aluguel anual. A operação que funciona dentro dele, a 4x a 6x o EBITDA. São dois ativos com mercados e lógicas de preço completamente diferentes, no mesmo endereço.
O recado vale integralmente para o Brasil, e vale tanto para clínica quanto para pet shop: o imóvel é um ativo com mercado próprio. Quem vende os dois em um pacote só costuma deixar dinheiro na mesa, porque o comprador da operação não precifica ponto pela lógica imobiliária. Tende a precificar como custo a absorver.
4. O pano de fundo macro: os juros começaram a ceder (com ressalvas)
Aqui está o fator que mais muda em relação ao nosso balanço de março.
O Copom iniciou em março de 2026 um ciclo de cortes e, na reunião de 5 de agosto, levou a Selic de 14,25% para 14,00% ao ano — o quarto corte consecutivo, por decisão unânime, partindo dos 15% mantidos desde junho de 2025 (CNN Brasil). O Boletim Focus projeta 13,75% no fim de 2026 e mediana de 12,00% para 2027.
Mas a ata de agosto veio mais dura que o número. O Comitê registrou que, em ambiente de expectativas de inflação desancoradas, exige-se restrição monetária maior e por mais tempo do que normalmente seria apropriado e esticou o horizonte de convergência (análise da ata). Com Selic a 14% e IPCA projetado em torno de 5%, o juro real brasileiro segue entre os mais altos do mundo.
O que isso significa na prática:
- A direção é favorável, a velocidade não. Financiamento de aquisição fica gradualmente mais barato, mas não a ponto de reabrir a fase de múltiplos generosos
- Fundos continuam disciplinados. Com custo de oportunidade alto na renda fixa, o ativo precisa ser muito bom para competir com um título público
- Para o pequeno vendedor, o efeito é indireto mas real. Crédito mais barato aumenta o número de compradores locais capazes de financiar a aquisição e mais compradores significa mais competição pelo seu ativo
5. Nota de calibração: o tamanho do mercado
Um ajuste de transparência sobre nosso balanço anterior. Ao projetar o faturamento do setor pet para 2026, mencionamos a barreira dos R$ 90 bilhões. Os dados consolidados de Abinpet, Abempet e Instituto Pet Brasil, atualizados ao longo de 2026, apontam número mais conservador: o setor fechou 2025 em R$ 77,96 bilhões (+3,56%) e projeta R$ 81,24 bilhões para 2026, avanço de 4,21% (compilação de dados setoriais 2026).
Dentro dessa projeção, os serviços veterinários crescem 4,65% e os serviços gerais 5,23% . Ambos acima da média do setor, mantendo intacta a tese central: serviço cresce mais rápido que produto. A população pet brasileira chegou a 166,8 milhões de animais, terceira maior do mundo.
6. Perspectivas para o 2º semestre de 2026
6.1. A janela de crédito melhora… devagar
Com Selic em trajetória de queda e mediana de 12% para 2027, o custo de capital deve seguir cedendo. Isso favorece estruturas alavancadas e tende a reaquecer o apetite por add-ons regionais no 4T26. Mas a ata do Copom mantém aberta a possibilidade de pausa. Mas não há garantia de aceleração linear.
6.2 A consolidação regional deve superar a nacional em volume
Enquanto as manchetes acompanham as grandes plataformas, o volume de transações deve continuar concentrado em operações regionais de médio porte — redes comprando clínicas e pet shops para adensar praças onde já operam. É o movimento menos visível e o mais provável de afetar o empreendedor médio no H2/2026.
O motivo é aritmético: com 94 mil pet shops e um líder de mercado com apenas 11% de participação, a fronteira de consolidação está nas praças, não nas capitais.
6.3 O tema fiscal no radar
Tramitam na Câmara dos Deputados propostas que permitiriam dedução de despesas veterinárias no Imposto de Renda. O PL 6307/25 prevê dedução anual de até R$ 3 mil por contribuinte para saúde preventiva de cães e gatos, com teto ampliado em 50% para animais adotados (Câmara dos Deputados). Outra proposta, do deputado Waldemar Oliveira, amplia o escopo para consultas, exames, vacinas, medicamentos e planos de saúde, com limite de R$ 5 mil (Fonte: CQCS).
Nenhuma está em vigor, e a aprovação é incerta. Mas o efeito potencial não é trivial: dedutibilidade transformaria gasto veterinário em despesa fiscalmente reconhecida, com impacto direto sobre ticket médio, adesão a planos e, por consequência, sobre a receita recorrente que sustenta múltiplos. É o tipo de mudança regulatória que reprecifica um setor inteiro.
4) Compliance vira variável de preço
A operação nacional De Olho no Plantão, do Sistema CFMV/CRMVs, fiscalizou 1.127 estabelecimentos e encontrou irregularidades em 21,9% deles, incluindo 82 ocorrências de ausência de médico-veterinário em atendimentos de plantão (CFMV).
Com fiscalização mais ativa e compradores mais criteriosos, irregularidade regulatória deixou de ser risco abstrato e virou linha de desconto em due diligence. Quem pretende negociar em 2027 precisa resolver isso agora.
Conclusão: o mercado não esfriou, ele subiu a régua
O primeiro semestre de 2026 não foi um semestre de retração. Foi um semestre de reclassificação. Menos transações, cheques maiores, exigência de governança em outro patamar. O capital não saiu do setor; ele passou a comprar coisas diferentes.
E há uma boa notícia embutida nos números. Com 94 mil pet shops, dezenas de milhares de clínicas e um líder de mercado com apenas 11% de participação, o problema do setor não é falta de comprador — é falta de encontro. A maioria das transações não acontece porque as duas pontas nunca se descobrem.
Para o empreendedor, o cenário desenha dois grupos cada vez mais distantes. De um lado, ativos com produção distribuída, recorrência estruturada, contabilidade auditável e conformidade em dia, que competem por múltiplos no topo da faixa e recebem mais de um interessado. De outro, negócios excelentes na operação e frágeis na gestão, que ou não recebem oferta ou recebem uma só, sem competição, com boa parte do preço condicionada a earn-out(recebimento ao longo do tempo mediante atingimento de indicadores e metas).
A distância entre esses dois grupos não se fecha em uma negociação. Fecha-se em 12 a 24 meses de trabalho estrutural.

Fontes consultadas
Dados de M&A
- Aon, em parceria com TTR Data e Datasite — Relatórios de Fusões e Aquisições na América Latina, 1T26 e 1S26
- KPMG — Pesquisa Fusões e Aquisições (séries trimestrais)
- Capital Lab — Pesquisa sobre intenção de aquisição de fundos no setor pet
Estrutura de mercado e transações
- Abempet — Distribuição do faturamento do setor por tipo de estabelecimento
- LeadJet — Base de estabelecimentos ativos por CNAE (pet shops), 2026
- Central do Varejo — Participação de mercado pós-fusão Petz–Cobasi e perfil do varejo pet
- Negócios Brasil — Precificação de pet shops e clínicas veterinárias; goodwill
- Panorama Pet&Vet — Análise do primeiro balanço consolidado da União Pet (Petz–Cobasi)
- InfoMoney / Bradesco BBI — Captura de sinergias Petz–Cobasi e compromissos com o CADE
- União Pet Participações — Release de Resultados 1T26
- Investing.com — Aquisição de imóveis da Mission Pet Health pela Four Corners Property Trust
- EloVetNet — Fusões e Aquisições no Mercado Pet & Vet: Balanço Q1/2026
Macroeconomia
- Banco Central do Brasil — Decisões e ata do Copom, agosto de 2026
- CNN Brasil — Cobertura da decisão de 5 de agosto de 2026
- Boletim Focus — Projeções de Selic e IPCA
Dados setoriais e regulatórios
- Abinpet, Abempet e Instituto Pet Brasil — Faturamento e projeções do setor pet 2025–2026
- Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) — Operação De Olho no Plantão, Plano Nacional de Fiscalização 2026
- Câmara dos Deputados — PL 6307/25 e propostas correlatas sobre dedução de despesas veterinárias no IR
Dados atualizados até agosto de 2026. Projeções de mercado e tramitações legislativas estão sujeitas a alteração.




