Com os balanços detalhados das consultorias que analisam o mercado do ponto de vista de M&A já publicados em abril e maio, podemos constatar que o primeiro trimestre de 2026 (1T26) encerra-se com um recado claro para o mercado brasileiro: a “festa do crescimento a qualquer custo” acabou, dando lugar a uma era de consolidação estratégica e eficiência operacional. Após um período de cautela, o setor Pet & Vet voltou ao radar dos grandes fundos, mas com um nível de exigência em governança que mudou o jogo dos valuations.
Com o faturamento do setor projetado para romper a barreira dos R$ 90 bilhões em 2026, alguns movimentos estão definindo o M&A (Fusões e Aquisições) nestes primeiros três meses do ano.
1. O Panorama Geral: Qualidade sobre Quantidade
Diferente do frenesi de anos anteriores, o volume de transações no 1T26 superou 2025 com um foco muito específico: consolidação regional e verticalização. O mercado não quer apenas “mais uma clínica” ou “mais um pet shop”; ele busca ativos que já nascem com gestão profissionalizada.
- Ticket Médio em Ascensão: O interesse deslocou-se para empresas de médio porte que já possuem processos de governança maduros.
- A Força do Investidor Estratégico: Além dos fundos de Private Equity, grandes players (como a consolidada estrutura Petz/Cobasi e grupos hospitalares) dominaram as aquisições, visando expandir sua presença geográfica e blindar seus ecossistemas de serviços.
2. A Visão das “Big Four”: O que dizem as Consultorias
Os relatórios e insights das principais consultorias, como Deloitte, KPMG e PwC, já foram divulgados e confirmam as seguintes tendências:
- Deloitte & Eficiência: A tese central de 2026 é a eficiência. Ativos que utilizam IA e Analytics para prever o comportamento do responsável pelo pet e aumentar o Life Time Value (LTV) estão no topo da lista de desejos.
- KPMG & Fragmentação: Para a KPMG, a fragmentação do mercado veterinário brasileiro ainda é a “grande avenida” de oportunidade. Onde há baixa profissionalização (local), há espaço para grupos criarem redes de escala nacional com padrões de excelência.
- PwC & Varejo Especializado: O setor de Saúde e Varejo Especializado Pet permanece entre os 5 mais ativos do país em número de transações neste início de ano.
3. Saúde Pet: A “Joia da Coroa” do M&A
Se o varejo de produtos sofre com a guerra de preços no e-commerce, o segmento de Saúde Pet (hospitais, clínicas e planos) tornou-se o motor de recorrência mais potente do mercado. No 1T26, a saúde apresentou uma dinâmica de consolidação muito mais acelerada.
O Fenômeno dos Planos de Saúde B2B
O grande salto não veio do balcão, mas do mercado corporativo. Segundo a Mercer e a KPMG, o plano de saúde pet consolidou-se em 2026 como um dos benefícios mais solicitados pelos colaboradores nos benefícios do empregador. Isso forçou seguradoras tradicionais a adquirirem PetTechs para entrar rapidamente nesse mercado.
A Estratégia de “Hub & Spoke” (Hospitais vs. Clínicas)
O movimento mais concreto e consolidado é a aquisição de hospitais de referência 24h para servirem como centros de alta complexidade (UTI, Tomografia, Oncologia). Essa estratégia tem respaldo nos números: segundo o Instituto Pet Brasil e a Abinpet, os serviços veterinários foram, em 2024, um dos dois segmentos com maior crescimento do setor — avançando 14,9% contra 9,6% do mercado pet como um todo —, evidenciando que a saúde animal cresce significativamente acima da média geral.
A ideia de clínicas menores como “satélites” de triagem — o chamado modelo Hub & Spoke — ainda é uma aspiração de mercado, não uma realidade disseminada. Até o momento, apenas um consolidador executou essa estratégia de forma integrada no Brasil, e de maneira pontual. O movimento relevante e predominante segue sendo a aquisição de hospitais de alta complexidade como ativos-núcleo das plataformas.
4. O Impacto no Valuation: Tecnologia é Dinheiro
Um dado vital para quem pretende vender ou atrair investimento: no 1T26, a digitalização tornou-se um multiplicador de valor.
De acordo com a Deloitte, clínicas com prontuários 100% digitais e integração nativa com telemedicina tendem a alcançar valuations superiores em processos de M&A. A magnitude exata desse prêmio, contudo, é debatida: embora números como 20% circulem em análises setoriais globais, no contexto brasileiro esse ganho tende a ser mais modésto — a digitalização hoje é cada vez mais um requisito mínimo de governança do que um diferencial isolado capaz de alavancar tanto o múltiplo.
Os investidores estão fugindo de ativos com alta dependência de planos de saúde pouco rentáveis. O foco agora são modelos de negócio que equilibram o fluxo de convênios com serviços particulares de alta margem e especialidades médicas.
Vale registrar também a compressão nos múltiplos de aquisição. No início da onda de consolidação do setor veterinário no Brasil, há cerca de oito anos, pagava-se em torno de 7x a 8x EBITDA pelos ativos mais desejados. Esse patamar veio caindo progressivamente: hoje o mercado opera predominantemente na faixa de 4x a 6x EBITDA para clínicas e hospitais de porte médio, com múltiplos mais elevados reservados a ativos excepcionais (alta complexidade, escala, governânça comprovada). Esse movimento segue uma tendência global: no mercado norte-americano, após o pico de consolidação em 2021, os múltiplos médios recuaram de patamar acima de 18x para a faixa de 5x–8x para práticas de menor porte, segundo dados do Ackerman Group. As consultorias reforçam que essa compressão não é necessariamente negativa: ela reflete maior disciplina do capital e valuations mais sustentáveis — compatíveis com o novo cenário de Selic elevada e maior seletividade dos fundos.
Conclusão: O que esperar do 2T26?
Com a estabilização da taxa Selic (se a guerra no Oriente Médio e esse “novo choque do petróleo” permitirem), o financiamento de grandes aquisições torna-se mais barato, o que sugere um segundo trimestre ainda mais agressivo.
Para o portal EloVetNet, o diagnóstico é claro: o mercado veterinário brasileiro amadureceu. A profissionalização da gestão, a adoção de tecnologia e a visão de “ecossistema de saúde” deixaram de ser diferenciais para se tornarem moedas de troca fundamentais na mesa de negociação.
Fontes Consultadas:
- Relatórios mensais de M&A da PwC Brasil e TTR Data.
- Insights estratégicos da Deloitte e KPMG (Consumo & Saúde 2026).
- Dados de mercado do Instituto Pet Brasil e Abinpet.
- Projeções de benefícios corporativos da Mercer.




