Por que pergunto ao jovem veterinário por que ele escolheu a Medicina Veterinária?
Marcio Mota
Faço essa pergunta há anos, em palestras, em corredores de congresso, em universidades, cursos, em conversas de mentoria que começam sobre uma clínica e terminam sobre a vida. E ela quase sempre provoca um pequeno desconforto: “por que você quis ser veterinário?”
A resposta mais comum é também a que mais me preocupa: “porque eu amo animais.”
Não há nada de errado em amar animais. Mas amar animais é o bilhete de entrada, não é a profissão. É por onde todo mundo começa, e não é onde ninguém deveria chegar. Quem responde apenas isso costuma ainda não ter percebido no que, de fato, se meteu. Porque a Medicina Veterinária não é o amor pelo bicho, é uma coisa bem mais difícil e bem mais bonita: é a arte de cuidar de um ser que não pode testemunhar sobre si mesmo, feita, quase sempre, para outro ser, que sofre por ele e paga a conta.
Conta-se que Wittgenstein escreveu uma frase que deveria estar pendurada na parede de toda faculdade de Veterinária: “se um leão pudesse falar, não o entenderíamos.” O filósofo falava dos limites da linguagem. Nós, veterinários, vivemos dentro desse limite todos os dias. O nosso paciente não fala. E, quando o responsável de pet fala, fala do que acha que viu, “ele tava meio quietinho”, “parou de comer ontem”, “acho que foi alguma coisa que ele lambeu”. A partir desse relato incompleto, de um corpo que não confirma nada, de um olhar que não explica onde dói, precisamos decidir. E decidir rápido.
A advocacia, dizem, é a administração de ambiguidades. A Veterinária é a medicina do silêncio. É a única profissão da saúde em que o paciente jamais dirá se o tratamento funcionou, se a dor passou, se a escolha foi acertada, a não ser por sinais que só quem aprendeu a ler consegue enxergar. A certeza, que o ser humano tanto persegue, é um luxo que raramente nos é concedido. O responsável pergunta “ele vai ficar bem, doutor?” com a mesma sede de percentual com que um cliente pergunta suas chances numa causa. E nós respondemos sabendo que a honestidade, ali, é feita de “depende”, “vamos acompanhar”, “os próximos dias vão nos dizer”.
Aprender a ler esse silêncio é o que separa o técnico do médico-veterinário. Um executa protocolo. O outro pensa. E foi por isso que a nossa profissão, que nasceu romântica, a criança que queria salvar o cachorro atropelado, se tornou uma das mais complexas do país.
Porque hoje o consultório mudou. O responsável chega tendo lido três fóruns, uma ou duas ferramentas de Inteligência Artificial e um vídeo antes de você, às vezes já com o diagnóstico na ponta da língua e a desconfiança no olhar. A clínica virou rede, virou hospital, virou operação com meta, com CRM, com plantão 24 horas que não pode parar. Chegaram os POPs, os indicadores, a estrutura, a compliance, a assinatura do RT que responde com o próprio nome por tudo o que acontece ali dentro. E chegou, também, o peso, as noites, as eutanásias que a gente carrega para casa, os casos que não tinham solução e que a gente insiste em revisitar de madrugada, se perguntando o que poderia ter feito diferente. Poucas profissões pedem tanto do coração de quem a exerce. É preciso dizer isso em voz alta, num dia como hoje, porque muita gente sustenta esse peso sozinha, calada, achando que fraqueza é sentir. Não é. Sentir é a matéria-prima de quem escolheu cuidar.
E eu falei até aqui a partir do consultório, clínica, hospital, porque é o meu chão. Mas seria uma injustiça, num dia como este, deixar a Medicina Veterinária caber na porta de uma clínica ou hospital. Ela é muito maior. Está no colega que enfia o braço até o cotovelo numa vaca às cinco da manhã e decide, sozinho no meio do pasto, sem exame nenhum a não ser as próprias mãos. Está em quem cuida da avicultura, da suinocultura, dos rebanhos que alimentam o país, o mundo e que responde, em silêncio e sem aplauso, pela proteína que chega à mesa de gente que nunca vai saber o nome dele. Está na vigilância sanitária, na inspeção, na saúde pública, na Saúde Única (Uma Só Saúde) que já entendeu há muito tempo o que o mundo só descobriu numa pandemia: que a saúde do animal, a do homem e a do ambiente são uma coisa só. Está no que se debruça sobre a fauna silvestre e a conservação, tentando ler o silêncio de espécies inteiras antes que elas se calem de vez. Está na aquicultura, no cavalo atleta, no animal de laboratório que carrega nas costas boa parte da medicina que salva também os humanos, no patologista que dá a última palavra quando ninguém mais consegue, no professor que forma todos os outros, no pesquisador, na indústria. Áreas diferentes, jalecos diferentes, cheiros diferentes, e, no fundo, o mesmo ofício: decidir sobre a vida de quem não pode falar por si, e responder por essa decisão com o próprio nome.
E é aqui que eu gostaria de deixar três perguntas, uma para cada um que vai ler isto.
Para você, que está na profissão há muitos anos: você ainda está lendo o silêncio, ou o silêncio virou rotina? Existe um risco silencioso na experiência, o de a árvore, tantas vezes vista da janela, virar apenas “uma árvore grande”. O animal vira “mais um caso”. O tutor vira “mais um atendimento”. Se a técnica te deu velocidade mas te tirou o espanto, talvez valha reencontrar o que te fez, um dia, atravessar aquela porta pela primeira vez. A experiência não é para ver menos. É para ver mais fundo.
Para você, que se formou há pouco: cuidado com o atalho de virar um bom executor de protocolo. O mercado vai te oferecer isso o tempo todo, porque é escalável, é limpo, cabe numa planilha. Mas o protocolo é o mapa, e o paciente é o território, e o território sempre tem uma pedra que o mapa não previu. A sua diferença, o que ninguém vai conseguir automatizar tão cedo, é a sua capacidade de pensar diante do que não estava no roteiro. Não terceirize isso.
E para você, que ainda vai se formar: quando te perguntarem por que escolheu a Veterinária, tenha uma resposta mais corajosa do que “amo animais”. Ame, sim. Mas saiba que você está entrando numa profissão que vai te pedir ciência nos dias de rotina e serenidade nos dias impossíveis; que vai te fazer conviver com a morte para poder honrar a vida; que é feita de bichos, mas é exercida para gente. Se, sabendo disso, você ainda quiser, venha. Estamos precisando.
Escrevo tudo isso com uma gratidão que é difícil de caber num texto. Olho para trás e vejo o veterinário que um dia só queria acertar o diagnóstico, e que foi virando o Clínico Geral do escutar o silêncio, passando por defender os interesses de todos os Médicos Veterinários, resolveu ajudar outros médicos veterinários como consultor, gente que ajuda a organizar clínicas e hospitais, que aceitou a responsabilidade de presidir, de representar, de construir tecnologia para que o nosso trabalho fique registrado e reconhecido. E percebo que, no fundo, nunca mudei de ofício. Continuo fazendo a mesma coisa que fazia no primeiro atendimento: tentando dar linguagem a quem não tem, dar processo, dar estrutura, dar voz a uma profissão que passou a vida inteira aprendendo a ler o silêncio dos outros e que, muitas vezes, esqueceu de falar por si.
Sou grato a cada paciente que não falou e, ainda assim, me ensinou tudo. A cada responsável de pet que confiou. A cada colega que segurou a barra de um plantão comigo, que fez a medicina veterinária ser enaltecida, grande e linda. A cada aluno que me perguntou algo que eu não sabia responder e me obrigou a estudar de novo.
Por isso insisto na pergunta. A resposta a ela é a única parte da conversa em que o jovem à minha frente deixa de ser um currículo, deixa de ser um diploma pendurado na parede, e passa, enfim, a existir como veterinário.

Texto: Marcio Mota




