“BARATO” ou CARO?
Fabiano de Granville Ponce
Acabei de receber um anúncio oferecendo R$ 300,00 para plantão veterinário de 12 horas (20h às 8h). Isso representa R$ 25,00 por hora (durante noite/madrugada) de um profissional com no mínimo 5 anos de formação universitária, responsável por decisões que envolvem vidas.
Esse cenário não é uma anomalia isolada. É sintoma de um problema estrutural que afeta toda nossa cadeia produtiva.
O CONTEXTO QUE NOS TROUXE ATÉ AQUI
A proliferação desenfreada de cursos de Medicina Veterinária – muitos com qualidade questionável – criou uma oferta desproporcional de profissionais.
Paralelamente, clínicas e hospitais enfrentam margens cada vez menores. A macroeconomia desfavorável, a concorrência acirrada e, principalmente, a pressão dos planos de saúde pet sobre os valores dos procedimentos, comprimem o EBITDA. Muitas operações trabalham no vermelho, tornando a folha de pagamento o primeiro alvo dos cortes.
MAS O QUE É UM PROFISSIONAL “CARO” OU “BARATO”?
Aqui está o equívoco fundamental: essa resposta não vem do valor pago a ele, mas do valor que ele GERA para a operação. Um veterinário que recebe R$ 800,00 por plantão pode ser infinitamente mais barato que aquele de R$ 300,00. Por quê?
➡️ Aumenta eticamente o ticket médio através de diagnósticos precisos e tratamentos adequados
➡️ Fideliza clientes pela qualidade técnica e relacional
➡️ Reduz drasticamente o risco de processos por erros médicos (que custam muito mais que a diferença salarial)
➡️ Constrói credibilidade e fortalece a marca da clínica
➡️ Motiva a equipe e reduz turnover
➡️ Gera indicações espontâneas
O DILEMA DO GESTOR
Entendo perfeitamente o desafio do gestor que olha seu fluxo de caixa apertado e precisa manter as portas abertas. A pressão é real. Os planos sugam margens, os custos sobem, os clientes pedem desconto.
Mas precisamos questionar: estamos resolvendo ou perpetuando o problema?
Quando normalizamos remunerações indignas, criamos um ciclo vicioso: profissionais mal pagos → atendimento comprometido → clientes insatisfeitos → pressão por preços menores → margens ainda piores → salários ainda menores.
O CAMINHO POSSÍVEL
Não tenho ilusões de que existe solução fácil. Mas algumas reflexões são urgentes:
🤔 Gestores: calculem o custo REAL do profissional barato (retrabalho, processos, perda de clientes, imagem)
🤔 Veterinários: valorizem-se. Aceitar R$ 25/hora perpetua o problema para todos
🤔 Instituições de ensino: qualidade > quantidade
🤔 Entidades de classe: precisamos de dados, advocacy e regulação
O mercado pet brasileiro movimentou R$ 80 bilhões em 2025. Há riqueza sendo gerada. A questão é: como ela está sendo distribuída?
Profissional valorizado não é custo. É investimento em sustentabilidade, qualidade e futuro….

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