A primeira hora do seu dia decide as outras 23
Marcio Mota

Reparei numa coisa nos últimos meses: os dias em que eu abro o olho e já pego o celular pra ver redes sociais, mensagem de um cliente, planilha de KPI ou notícia, eu chego no meio-dia destruído, e ainda nem resolvi nada de importante. Nos dias em que eu tomo café com calma, leio algumas páginas de um livro antes de levar minha filha na escola, mesma quantidade de trabalho pela frente vira outra coisa. Eu chego mais inteiro nas reuniões difíceis.
Não é força de vontade. É sequência. É o que entra primeiro na sua cabeça.
O erro de achar que produtividade começa com a primeira tarefa
A gente vive numa cultura que valoriza quem “ataca o dia” assim que levanta. Abre o e-mail, olha a agenda, já entra direto no modo resolução de problema. Isso parece disciplina, mas na prática é só entregar os primeiros minutos do seu dia — os únicos que são realmente seus — pra agenda de outra pessoa.
Quando o primeiro contato que você tem com o mundo é uma obrigação, seu cérebro já entra em modo de defesa. Você começa reagindo, não escolhendo. E esse estado emocional não desliga depois de uma hora, ele vira o filtro do resto do dia.
Já quando a primeira coisa que você faz é algo que escolheu, porque genuinamente te dá prazer, a mensagem que você manda pra si mesmo é diferente: esse tempo aqui é meu, eu escolhi o que fazer com ele. Só depois disso eu entro no jogo de todo mundo.
Como isso funciona pra mim, na prática
Antes de abrir qualquer planilha, qualquer mensagem sobre algum cliente, verificar redes sociais, ler notícias, tem uma sequência que eu tento proteger.
Tomo café da manhã com calma. Nada de revolucionário nisso, mas faço sem celular na mão, o que já é raro hoje em dia.
Leio algumas páginas. E aqui tem um detalhe meu: eu sempre leio dois livros em paralelo, nunca um só. Um mais de ficção, romance ou filosofia, outro mais técnico, de gestão, de regulatório aplicado à veterinária, ou sobre inteligência artificial. Hoje, por exemplo, estou no meio de Plano de Voo e das Confissões de Santo Agostinho ao mesmo tempo. Um me distrai do trabalho, o outro me prepara pra pensar sobre ele de um jeito mais lento, sem a pressão de já ter que produzir alguma conclusão prática.
Depois levo minha filha na escola. E na maioria dos dias, de lá eu sigo direto pra academia. Em alguns dias específicos, sigo pra algum cliente.
Esse hábito de cuidar do corpo, de fazer exercício, de me preocupar com o que eu como, é recente. Comecei há seis meses. Antes disso eu não corria, nunca tinha pisado numa academia com regularidade, não prestava atenção nenhuma em alimentação. Hoje corrida é o que eu mais gosto, depois vem a academia. E se tem uma palavra que resume o que eu aprendi nesse meio ano, é constância. Não foi um estalo, não foi motivação. Foi repetir, sem exigir perfeição de mim, até virar parte do dia.
Só depois de tudo isso eu entro na agenda de quem cobra prazo, de quem espera resposta, de quem está esperando decisão.

O ponto que muita gente erra
Tem uma diferença enorme entre fazer alguma coisa de propósito e simplesmente preencher um tempo. Ficar rolando feed, deixar uma série passando no fundo enquanto checa o celular — isso não é descanso, é só anestesia. Geralmente sai dali mais ansioso do que entrou.
A atividade que abre o seu dia precisa ser escolhida, não automática. Se você tem que pensar “ok, e agora o que eu faço”, a chance de cair no piloto automático do celular é enorme. Por isso vale ter duas ou três opções já mapeadas — pra quando uma não bater, você ter outra pronta, em vez de cair de volta na rolagem infinita.
E se um dia falhar? Sem problema. Não é vergonha admitir que hoje você caiu no automático. A vergonha seria insistir num hábito que você já sabe que não te faz bem, e não tentar mudar. Tentar de novo no dia seguinte já é o suficiente.
Por que isso importa especialmente para quem cuida de hospital veterinário
Agora, pensando em quem trabalha dentro de uma rotina hospitalar — médico veterinário, lider, gestor de clínica 24 horas — esse princípio fica ainda mais urgente, porque o ambiente já entra empurrando decisão difícil desde o primeiro minuto.
Quem assume um plantão, quem entra numa reunião de equipe, quem precisa decidir um protocolo ou conduzir uma conversa difícil com um tutor logo de manhã, já está operando sob pressão antes mesmo de “ligar o motor”. Se a primeira coisa que essa pessoa faz no dia é abrir o grupo de WhatsApp da equipe ou checar pendência financeira, ela chega pro paciente, pro colega, pro tutor, já no modo reativo. E o cuidado clínico — que exige presença, escuta, raciocínio fino — sofre exatamente por isso.

Médicos veterinários tomam decisões técnicas o dia inteiro: protocolo de internação, conduta cirúrgica, comunicação de prognóstico difícil. Decisão técnica boa exige cabeça que chegou inteira no trabalho, não uma cabeça que já está em dívida emocional desde as 6h da manhã.
E para quem está em posição de liderança — coordenando equipe, organizando escala, padronizando processo entre unidades — o efeito é ainda mais amplificado, porque seu estado emocional vaza para todo o time. Um líder que chega disperso, ansioso, já no sufoco, transmite isso pra equipe inteira sem dizer uma palavra. Um líder que chega com a cabeça organizada, mesmo que tenha dormido pouco, tende a conduzir reunião, dar feedback e tomar decisão de jeito mais claro e menos reativo.
A disciplina não é o ponto principal aqui. O ponto é lembrar que antes de ser médico, antes de ser gestor, antes de ser líder, você é uma pessoa, e essa pessoa também precisa de um motivo pra querer sair da cama que não seja só a obrigação esperando do outro lado da porta.
No fim, a pergunta não é como produzir mais. É qual é a primeira coisa que você escolhe fazer antes de virar a versão de você que todo mundo espera. Eu ainda estou aprendendo isso, seis meses de constância não resolveram tudo, mas já resolveram o suficiente pra eu notar a diferença. Talvez valha você testar também.





