80% das empresas não encontram talentos; estão procurando errado?

80% das empresas não encontram talentos; estão procurando errado?


Paulo Camargo

As empresas estão buscando profissionais formados por outras empresasImagem: Getty Images

O atual presidente do McDonald’s Brasil começou como atendente. Fritou batata, montou hambúrguer, atendeu no caixa, tornou-se gerente e continuou avançando dentro da empresa. Quando saí da presidência, foi ele quem assumiu.

A empresa não precisou buscar no mercado. O talento já estava ali. Sempre esteve.

Mas alguém precisou enxergá-lo, oferecer oportunidades, acompanhar seu crescimento e confiar nele antes que estivesse completamente pronto.

Lembrei-me dessa história porque tenho ouvido com frequência a mesma frase de empresários e executivos: “Está muito difícil encontrar gente boa.”

Os dados confirmam. Segundo a ManpowerGroup, cerca de 80% dos empregadores brasileiros dizem ter dificuldade para contratar profissionais com as competências de que precisam. Entre empresas com 1.000 a 4.999 colaboradores, esse número chega a 90%.

É claro que existe um desafio estrutural de educação e qualificação no Brasil. As competências exigidas pelo mercado estão mudando numa velocidade difícil de acompanhar, especialmente em tempos de IA. Segundo o Fórum Econômico Mundial, 39% das habilidades atualmente exigidas dos profissionais devem mudar ou se tornar obsoletas até 2030. Isso significa que mesmo o profissional considerado pronto hoje pode deixar de estar pronto em poucos anos.

É um problema real. Mas talvez estejamos fazendo a pergunta errada.

Será que faltam talentos ou estamos procurando apenas profissionais prontos?

Muitas empresas querem encontrar no mercado profissionais que já dominem seus processos, conheçam suas ferramentas, entendam sua cultura e sejam produtivos desde o primeiro dia. Em outras palavras, procuram alguém formado por outra empresa.

É verdade que algumas posições exigem experiência específica e busca no mercado. Nem toda vaga pode ser preenchida internamente. Mas quando a contratação externa vira regra e a formação interna vira exceção, o mercado entra num ciclo perigoso. A empresa reclama que não encontra gente preparada, disputa os poucos profissionais prontos disponíveis, aumenta salário para atraí-los e, algum tempo depois, perde para outra empresa disposta a pagar mais. O talento circula, mas não se multiplica.

Formar pessoas sempre foi parte essencial do crescimento das melhores empresas. Existiam programas de entrada, acompanhamento próximo, gestores que ensinavam a operação. A pessoa entrava para ocupar uma posição, mas também para construir uma carreira.

Várias empresas entenderam isso e criaram universidades corporativas e programas de formação interna. O McDonald’s mantém a Hamburger University desde 1961. Mas nenhuma universidade corporativa substitui o gestor que ensina, acompanha e confia no dia a dia.

Porque formação de verdade não acontece apenas numa plataforma. Ela se constrói no cotidiano, quando o gestor explica não só o que precisa ser feito, mas por que aquilo importa. Quando dá retorno no momento certo. Quando permite que alguém assuma uma responsabilidade antes de estar completamente pronto e acompanha o erro sem destruir a confiança.

Hoje, em muitas organizações, o gestor está tão pressionado pela operação que deixou de olhar para a formação da equipe. Passa o dia resolvendo urgências, participando de reuniões, cobrando entregas. E o desenvolvimento virou responsabilidade exclusiva do RH.

O RH pode criar programas e ferramentas. Mas é o líder direto quem transforma trabalho em aprendizado.

Ao longo de mais de 30 anos liderando operações, vi gente entrar sem experiência nenhuma e, com o tempo, liderar equipes inteiras. Essas pessoas não chegaram prontas. Chegaram com vontade e atitude. O resto foi construído dentro da empresa, por líderes que investiram tempo neles.

Talvez o mercado esteja enfrentando uma escassez de talentos. Mas eu desconfio que exista também uma escassez de empresas dispostas a formar pessoas.

O atual presidente do McDonald’s Brasil não foi contratado para ser presidente. Foi formado para chegar lá.

Fonte: economia.uol.com.br/

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