Uma das narrativas que tem ocupado algumas discussões do ensino superior é a ideia de que a Universidade deveria se adequar à narrativa de “formar pessoas para o mercado”.
Obviamente que a Universidade deve manter um fluxo contínuo de diálogo com as tendências e com as transformações do mercado de trabalho, uma relação saudável e bilateral. Mas, ao meu ver, quando ela abdica do seu papel de liderança intelectual para se tornar meramente reativa ao que “o mercado” pede no curto prazo, acaba por formar profissionais “plug and play” (prontos para uso), e falha no seu propósito fundamental. A construção da autonomia intelectual e do pensamento crítico, competências que julgo ser atemporais.
Os melhores profissionais veterinários que conheço e conheci, se tivessem sido “formados pro mercado” já teriam se tornado obsoletos e facilmente substituíveis. Mas, no entanto, foram formados com a máxima de aprender a pensar e questionar, e não apenas replicar. É justamente por isso que, apesar do passar do tempo, mantêm-se relevantes e continuam ditando as transformações do mercado, em vez de apenas reagir a elas.
Talvez esses profissionais sejam fruto do trabalho de professores que exigiam o rigor necessário à formação de um futuro profissional da saúde, ao mesmo tempo em que forneciam os subsídios para que esse rigor fosse acolhido e prontamente estabelecido.
Ver narrativas como essa ganhando espaço nos diálogos sobre o ensino superior é algo que me preocupa. Acho que precisamos cada vez mais de professores que estejam dispostos a exercer o rigor e a exigência necessários para formar um futuro profissional da saúde. Certamente isso vai contribuir para formar futuros pares e colegas, capazes de seguir contribuindo e colaborando com a profissão.

Texto – Aline Santana




